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A torre da igreja

A torre da igreja - Prefácio São três da manhã de uma segunda-feira, 11 de setembro de 2023, e fui obrigado a levantar, fazer um café, fazer um cuscuz, e continuar a escrever esta história, não necessariamente nesta ordem. Esta história nasceu a partir de um poema e pretendia ser apenas um microconto de três parágrafos, formato que adotei para as crônicas que lanço aqui. Mas o texto é parricida, quando nasce mata o pai. Agora ela quer se tornar um romance, quiçá uma série de TV. Nossa “Torre”, torre de Babel, não pela confusão, mas pelas colaborações com as quais já conto, é também pelas quais vou vir a contar, é a história de uma mulher descobrindo seu passado. Tendo como pano de fundo a história de Itapetim, a história da construção da igreja de São Pedro, epicentro desta história e da cidade. É também a história de figuras reais sendo transformadas em personagens e personagens se tornando reais. Neste primeiro momento em que vou disponibilizando aqui no Facebook os “capítulos”, quas...

Ontem minha mãe morreu

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos.” Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.   O estrangeiro – Albert Camus       Ontem minha mãe morreu. Hoje foi enterrada num desses cemitérios particulares e modernos, onde não há construções de mausoléus, só lapides deitadas no imenso gramado.   “O maior cemitério da América Latina. Um milhão e duzentos mil metros quadrados de bosques, colinas, flores e muito verde totalmente urbanizado.   Com infraestrutura de serviços vinte e quatro horas por dia. A quinze minutos da Barra (da Tijuca). Este é o lugar mais perto do paraíso”.   O texto acima está no site do cemitério. Serviços 24 horas por dia, hum... Se fosse possível aos inquilinos aproveitar tudo que o local oferece, comprar umas cervejinhas na cafeteria, levar 15 minutinhos para dar um pulinho no Barra Shopping, eu concordaria em ir...

Bacurau - o filme

Assisti ontem na Globo, porque Beth Formaggini me lembrou, Beth é, foi, foi minha professora de história, ela me lembrou no Face, mas lembrou. Não lembrou a mim especificamente, mas a todos que viram sua postagem.   Sobre o que é Bacurau? Acho que sobre muitas coisas. Mas a principal é uma cadeia discriminatória de raças. Um alemão que se acha superior aos americanos, os americanos que se acham superiores aos brasileiros ou latinos, brasileiros do sudeste associados aos americanos que se acham superiores aos brasileiros do nordeste, brasileiros do nordeste vendidos aos americanos que se acham superiores aos seus conterrâneos.     Mas Bacurau, como disse, é sobre muitas coisas: sobre o domínio dos recursos naturais por poucos em detrimento de muitos, no caso a água; sobre representantes do povo que vendem a vida, literalmente a vida, desse povo a quem tiver interesse em pagar.   Bacurau é sobre políticos que só aparecem de quatro em quatro anos oferecendo ...

Hoje minha mãe morreu

  Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos.” Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem. O estrangeiro – Albert Camus     Hoje minha mãe morreu. Ao contrário de Meursault , personagem de Camus no livro “O estrangeiro”, eu não tenho dúvida se foi ontem ou se foi hoje. Foi hoje a morte de minha mãe, meu irmão mais velho me ligou para avisar, nesta terça-feira, 10 de novembro de 2020. Estou no sertão de Pernambuco e minha mãe faleceu no Rio, Rio de Janeiro onde nasci. Este mesmo irmão me disse outro dia, num telefonema, que minha mãe estava só me esperando para partir, eu, o único filho longe dela. Quase oitenta anos, coincidências, o romance de Camus foi lançado no ano em que minha mãe nasceu. Na Rádio Cidade, ouvida pela web, toca Sing, com Travis. Daqui a dez dias vou estar de volta a Cidade Maravilhosa, depois de três anos aqui pelo nordeste.   Eu, de um...

Rua Sem Saída

   Puto com a lentidão do trânsito, Jaime virou na primeira à direita. Sorriu e acelerou espertamente na rua vazia de carros. Mudou o cambio para automático e se acomodou melhor no banco do BMW modelo ZR3 . Aumentou o volume do rádio sem precisar tirar as mãos do volante, verificou o nível do óleo e só não sentiu a tração das quatro rodas se ajustarem automaticamente porque a curva não era acentuada. Mas quando ia aproveitar a potência do motor, que ia de zero à cem em segundos, e a única coisa que ainda não tinha testado, teve que fazer uso dos freios ABS, que funcionaram com precisão - como tudo o mais dito no comercial de TV - , impedindo que o pará-choque se arranhasse no carrinho enferrujado de bebê tombado no final da rua. O emboço caído em vários pontos deixava ver os tijolos pequenos e sem furos do paredão de um galpão que fechava a rua. Caixotes de madeira, sacos de supermercados cheios de lixo e amarrados na boca, formavam bolas disformes distribuídas desorden...

Deus ex machina

Sempre que ouço cristãos como eu, católicos eu evangélicos, afirmando que Deus falou com eles, experimento uma sensação de desconforto, fico incomodado. Fico me perguntando, como foi isso? Será que eles, assim como Moisés, viram uma sarça arder em fogo? Como é que Deus falou com eles? - Tio – minha filha me chama de Tio, porque sou seu padrasto - Tio, Jesus falou comigo, aqui, agora, enquanto eu lavava louça e a pia entupiu! É, Jesus falou com minha filha enquanto ela lavava a louça. Eu perguntei – E o que Ele falou? Que depois de lavar a louça você tem que limpar o fogão também? - Não – disse minha filha.  Jesus nunca diz para minha filha fazer uma segunda coisa de casa, depois da gente mandar ela fazer a primeira.   – Jesus disse que eu sou como essa pia entupida. - Como assim? -  Jesus me disse – continuou ela – que eu sou como esta pia entupida, vou deixando pequenas sujeirinhas se acumularem em mim, achando que não é nada, e então entupo, fico chei...

(Maria) Das Dores

Ele chegou para pegar um prato de comida. Disse que comia pouco, mas que podíamos cobrar o preço. Minha mulher lhe fez o prato, acompanhado de um copo desses refrescos em pó que vem em saquinhos e rendem um litro depois de prontos. Como sobremesa ela lhe serviu também um pedaço do bolo que tinha feito ontem para comemorar meus cinquenta anos. Não servimos sobremesa, mas ele comeu tão pouco, que acho que minha esposa ficou envergonhada de cobrar por tão pouca comida que lhe ofereceu o bolo. Depois de comer, e ele comia pouco mesmo, me falou das dores que o habitavam. E era eu escutando sobre suas dores e pensando que as dores que o habitavam moravam eram em mim. E no final, as dores não eram nem minhas, nem dele. Talvez por ser assim, doíam ainda mais do que se fossem nossas. Destino, coincidência, acaso, Deus... eu parei de procurar um adjetivo para essas coisas que sempre me acontecem. Dias atrás minha esposa me apresentou a uma lista das dores que nesses quase doze anos de ...