sexta-feira, novembro 06, 2015

 

Vale o que está escrito

Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa, dia abafado e sem sol. Quarto dia do décimo primeiro mês do ano de dois mil e quinze de nosso Senhor, data do meu aniversário.

Rotsen Alves Pereira. Há 47 anos carrego nome e sobrenome do meu pai. O sobrenome da minha mãe não entrou na composição. Nome é sobrenome foi tudo que o filho da puta do meu pai me deu. Digo filho da puta sem rancor. Até porque tive sorte com o primeiro nome, uns pensam que é árabe, outros que é alemão, isto até conhecerem o etíope aqui. Retornando hoje com minha mãe do médico, descobri que ela também só carrega o sobrenome do pai. Já meu meio-irmão mais velho carrega um "pai desconhecido" grafado em sua certidão.

Vale o que está escrito. É a regra do jogo do bicho. Vale o que está escrito. É a regra dos cartórios, autarquias, departamentos. Escrever é fácil, tanto quanto falar. 

As vésperas de completar meio século de vida - tendo vivido quase metade da vida que terei, já que vou morrer aos cem anos - eu ia dizer que começarei corrigindo meu nome. Mas nem mesmo uma prova corrigimos. Tudo o que o professor faz nela é apontar os erros. Que dirá uma vida passada. 
- Vou corrigir meus erros! Que frase mais estupida.

No instante em que escrevi no paragrafo anterior 'já que vou morrer aos cem anos', me dei conta do que venho dizendo. Vou morrer. Quantas vezes já repeti isto, em tom de brincadeira, estabelecendo o prazo de minha longivibilidade. Todos nós vamos morrer. É a única certeza que cada filho da puta sobre a face da terra tem. Nenhuma certeza sobre céu ou inferno. Nenhuma certeza sobre felicidade ou infelicidade, riqueza ou pobreza. Ah, mas sobre a morte... 

Não há nada a fazer sobre minha morte, mas sim sobre minha vida. E sem que isto seja uma correção ou tenha qualquer outro significado, a partir de hoje, de agora, passo a me chamar, Rotsen Rosa Ribeiro, o Rosa vem da minha esposa, o Ribeiro da minha mãe. 

Assinado, Rotsen Alves Pereira, quero dizer, Rotsen Rosa Ribeiro.

 

Relatos Domesticados

Saio de casa e caminho apressado, estou atrasado. A breve chuva já estiou. Passo em frente ao Castelo Lounge, antigo Castelo das Pedras e sigo até a entrada do Condomínio Floresta. São sete horas e apesar do horário de verão já está ficando escuro. Morando no Rio das Pedras a quase nove anos, é a primeira vez que entro neste condomínio. Na guarita pergunto como chegar ao Theatro Floresta.
- V-a-i andando e entra a direita.

Apresso o passo novamente. Só vejo entradas a esquerda e pergunto se o vigia disse mesmo a direita. Direita e esquerda sempre me confundem. Quando tenho que indicar um dos lados, antes, imagino e as vezes até faço a mímica do ato de escrever, sou destro. É a mesma coisa com horizontal e vertical, para diferenciar um do outro, imagino a linha do horizonte com um por de sol ou no sem fim do mar.

Finalmente chego na primeira entrada a direita. Uma cancela com uma guarita no meio e passagens nas laterais para os carros. Pergunto novamente como chegar ao Theatro.
- V-a-i subindo.
- Mas é a esquerda ou a direita?
- Você vai ver.

A larga estrada é uma senhora rampa. Logo no início uma placa igual as de trânsito pergunta “Você já sorriu hoje”. Olho para a rampa a minha frente e imaginando o quanto ainda vou ter que subir, esboço um sorriso e reinicio a caminhada.
- Você já sorriu hoje? Esta pergunta me faz lembrar o conto do Rubem Fonseca, O Contador, precisamente a parte onde o dentista, batendo com o espelhinho nos dentes cariados do personagem, pergunta: “Como foi que você deixou seus dentes ficarem assim?”

Já escureceu totalmente. A esquerda vejo um campo de futebol, mas antes de reconhecê-lo como campo pensei que fosse uma quadra de tênis, teria mais a ver com o ambiente. A seguir vejo uma arena de hipismo e penso, agora sim. A direita, para onde a montanha cresce, só dá para ver mato.

A subida, no ritmo que estou me impondo – do alto dos meus 47 anos a serem comemorados no início do mês que vem, logo depois do dia de finados – me tira o fôlego.

Estou indo para o segundo encontro de um grupo que quer formar um coletivo cultural, cinema, teatro, música, artes. Faltei ao primeiro encontro. Hoje será exibido um filme argentino. Como dirá o Amarílio, o cinema argentino discute questões atuais, ao contrário do nosso cinema, tomado pelas comédias besteirol. O melhor papa da história é o atual, e é argentino, bem, talvez Francisco perca para João Paulo II. Talvez sejamos mesmo “macaquitos”, como os argentinos nos chamam. O que é natural, afinal, alguém já disse que somos uma república de bananas, com duplo sentido, por favor, como diria Agamenon (Mendes Pedreira), o jornalista.

Procurando manter o ritmo para não chegar muito atrasado, mas sem conseguir manter o fôlego penso, dois encontros desses por semana, esta rampa e adeus ao meu sedentarismo. 

Outros se atrasam, vai rolar aquele papinho inicial, acho que pelo menos o início do filme não perco.

Finalmente vejo o grande prédio, nele uma placa, sede ou sede campestre, não lembro, dois ou três andares, largo, algumas luzes acessas, nenhum sinal de gente, alguns carros estacionados em frente. Entro pelas portas duplas onde uma está aberta. Ninguém. Subo um lance de escadas a esquerda e estou num espaço amplo com sofares e outros móveis rústicos. Ninguém. Apuro os ouvidos e tenho a sensação de ouvir música. Avanço  procurando escutar. 
- Acho que não é aqui embaixo. 
Recuo e subo mais um lance de escadas a direita, vejo a esquerda indicações dos banheiros e novo lance de escada a direita, subo. Posso ver as pedras da montanha incorporadas a construção. Acho que as paredes são marrons. A direita dois ou três lances de escadas levam a um mezanino. Estas ultimas escadas dão um ar de atualidade a construção. Subo e encontro a porta da sala do teatro aberta. Entro. Uma meia dúzia de pessoas sentadas na penumbra. Na imagem congelada no fundo do palco, leio o título do filme, "Relatos Selvagens", enquanto o Amarílio ajusta o contraste. Ele me vê, me saúda e interroga.
- Rotsen?!
Digo que sim e dou um boa noite a todos. Juliana levanta e com toda sua alegria vem me cumprimentar.

Cheguei.

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